A primeira criança brasileira gerada a partir de um zigoto
selecionado para ser livre de doença genética e ter compatibilidade de
transplante acaba de fazer uma doação que deve salvar a vida de sua irmã. Maria
Clara foi escolhida quando ainda era um zigoto, de modo que nascesse sem a
mesma doença da irmã Maria Vitória e pudesse ajudá-la a viver.
Maria Vitória, a irmã mais velha, de 6 anos, tinha
“talassemia maior”. A doença fazia com que seus glóbulos vermelhos fossem mais
fracos e a deixava anêmica – para isso, recebia transfusões de sangue a cada 20
dias, aproximadamente. A única solução definitiva para a doença seria o
transplante de medula óssea, onde os glóbulos vermelhos são produzidos.
Foi onde Maria Clara entrou na história. Por ser irmã, ela
poderia fornecer uma medula compatível com a de Maria Vitória para o
transplante, o que curaria a irmã.
A seleção genética foi necessária porque a talassemia é uma
doença hereditária, ou seja, os pais das meninas possuem os genes que causariam
esse mal. Assim, seria bastante provável que a segunda filha também tivesse a
doença, o que não aconteceu porque a seleção foi feita.
De dez zigotos separados na clínica Fertility, oito dariam
origem a bebês doentes e foram descartados; os outros dois foram colocados no
útero da mãe, sendo que um deles se perdeu e o outro deu origem à gestação de
Maria Clara.
O transplante em si
Antes de passar pelo transplante, Maria Vitória precisou
passar pela quimioterapia. O tratamento é normalmente usado para pacientes com
câncer, mas, neste caso, tinha o objetivo de destruir a medula óssea defeituosa
da menina – a talassemia não tem nenhuma relação com o câncer. Efeitos
colaterais conhecidos, como a queda de cabelo, também ocorreram.
Para fazer o transplante, os médicos usaram células
retiradas do cordão umbilical de Maria Clara, assim como a medula óssea da irmã
mais nova. O ideal seria usar só as células do cordão umbilical, que têm menor
risco de rejeição, mas nem sempre é possível usar apenas essas células, porque
a quantidade é pequena. Por isso, os médicos muitas vezes usam também a medula
do doador, como aconteceu neste caso.
Foi a necessidade da doação de medula que fez com que o
transplante demorasse tanto a ser feito. Maria Clara nasceu em 11 de fevereiro
de 2012, mas o material não pode ser retirado de uma doadora tão pequena. O
transplante só foi feito em 27 de março de 2013.
Até agora, mais de 20 dias depois da operação, a equipe do
médico Vanderson Rocha, coordenador de Transplante de Medula Óssea do Hospital
Sírio-Libanês, em São Paulo, não registrou nenhuma complicação, tanto que há
previsão de alta para Maria Vitória neste fim de semana.
“Cura mesmo, a gente tem que esperar alguns meses”,
ressaltou Rocha. “Pode ocorrer ainda uma rejeição, mas isso é pouquíssimo
provável”, completou, otimista.
O médico responsável pela operação disse ainda que, embora o
fígado de Maria Vitória já tivesse apresentado uma pequena lesão provocada pela
doença, ela não deve ter sequelas. “Foi um bom momento para fazer a operação,
ela não corre riscos no futuro”, afirmou.
A rejeição do corpo à medula óssea – ou vice-versa – é a
maior preocupação dos médicos quando um transplante é feito, pois essa reação
pode até levar à morte. Por isso, geralmente é dada preferência a um parente
como doador, pois a compatibilidade é maior.
Existe uma outra técnica, em fase experimental, que dispensa
o doador e já obteve sucesso em alguns pacientes, chamada “terapia gênica”. A
medula óssea do paciente é retirada, seus genes são modificados para corrigir a
falha na produção dos glóbulos vermelhos, e então essa medula é injetada de
volta no corpo.
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Foto: Jornal O Dia / Texto: Portal G1
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