domingo, 7 de novembro de 2010

V Semana Cultural - sob o olhar da geografia - (por Joel dos Anjos)

A Escola Municipal Jardelina Freire do Nascimento estará promovendo no período de 15 a 20 de novembro a V Semana Cultural com o tema "Construir a cidadania: nosso maior desafio". A idéia é trazer para a discussão temas relevantes como desmatamento, poluição e desigualdade social. Na verdade é um chamamento para a ação. Como tem sido o nosso comportamento diante de fatos que comprometem a vida no planeta? Qual tem sido a nossa atitude diante da miséria e da exclusão social? Temos sido apenas espectadores ou temos buscado soluções? Qual tem sido o papel da escola?
A cidadania consiste desde o gesto de não jogar papel no chão, apagar as lâmpadas em ambientes vazios, separar o lixo para reciclagem, dizer obrigado, bom dia, por favor... até o enfrentamento de graves problemas como o abandono e a exclusão social.
As instituições de ensino devem divulgar e trabalhar a cidadania objetivando o bem estar e o desenvolvimento da sociedade.
É nesse contexto que a geografia se insere, por se tratar de uma disciplina voltada para a reflexão de ideologias políticas, econômicas e sociais e que se caracteriza por buscar desenvolver no aluno a capacidade de identificar e refletir sobre diferentes aspectos da realidade, considerando que esta realidade não é imutável nem estática, e que ele próprio não é um mero observador, mas um agente ativo capaz de transformá-la.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Doras e Carmosinas

Há momentos em que os anos vividos nos obrigam a olhar em volta e fazer uma revisão das nossas perdas e dos nossos danos. Se hoje estou sendo agraciada com a mais alta condecoração de nosso país, é porque sou resultado de muitas influências e convivências. Centenas de companheiros e personagens me formaram, me educaram e estão comigo sempre. Não me refiro só a minha família de sangue, mas principalmente à minha família de opção...
Mas existe o antes. A infância. E - por que não? - o período da minha formação primária. Acho que é aí que tudo começa. Ao trabalhar o mundo da professora Dora de Central do Brasil, lá na infância é que fui buscar, na minha memória, as primeiras professoras que me alfabetizaram. Credenciadas, respeitadas, prestigiadas professoras primárias da minha infância. Professoras de escolas públicas que eu freqüentei, no subúrbio do Rio.
Eu me lembro especialmente de Dona Carmosina Campos de Meneses, que me alfabetizou. E, mais do que isso, que me ensinou a ler, o que é um degrau acima da alfabetização. Naquele tempo, as professoras ainda se chamavam Carmosinas, Ondinas. Busquei na memória a figura de Dona Carmosina para me aproximar da professora Dora (para mim, personagem não é ficção). E vi como seria trágico se a minha tão prestigiada e amada Dona Carmosina viesse a se transformar, por carências existenciais e sociais, numa endurecida e miserável Dora. Foi essa visão de tantas perdas que me deu o amocional da cena final do filme quando Dora escreve "tenho saudade de tudo".
Saudade é uma palavra forte e uma forma profunda de chamamento, de invocação. Entre Carmosina e Dora lá se vão sessenta anos. Penso que minha vocação de atriz foi sensibilizada a partir das leituras em voz alta, leituras muito exigidas, cuidadas, orgânicas, que nós alunos fazíamos usando os livros de português do antigo curso primário. As primeiras coisas que decorei na vida foram dois poemas que Dona Carmosina mandou (é essa a palavra: mandou) que decorássemos nas férias de dezembro: "Meus oito anos" de Cassimiro de Abreu e "Canção de exílio" de Gonçalves Dias. Na volta das férias naquele ano de 1937, eu, mesmo tímida, envergonhada e encantada declamei: "Oh! Que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais. Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais". Essas bananeiras e esses laranjais não eram licença poética. Os subúrbios de nossas cidades ainda não tinha sofrido essa degradação ambiental que infelizmente se faz presente com o passar dos anos. Vi muitos Brasis entre esses meus oito anos, os oito anos do poeta e essas duas mulheres: Carmosina e Dora. Vejo essa passagem de tempo, claro, com alegrias e ganhos, mas também com muitas perdas e dor. Sou atriz e confesso a minha deformação profissional: esse sentimento de perdas, essa nostalgia me ajudarm a resgatar o emocional dessa desprotegida e amarga Dora ao intuir que dentro dessas Doras desiludidas existe sempre uma Carmosina à espera de um ombro e de um socorro.
Senhor presidente, nesta nossa confraternização de artistas e autoridades como não lembrar o milagre que a educação e a cultura produzem em todo ser humano. É este, me parece, o espírito que nos une aqui, neste espaço, e por estarmos diante da mais alta autoridade do nosso país, que é Vossa Excelência, a herança cultural da reivindicação artística e social se apresenta... Mas, Vossa Excelência é um democrata e um professor, por isso peço a Vossa Excelência me dar o direito de não resistir, mesmo porque acredito que estamos numa concordância de vontades. Senhor presidente, precisamos urgentemente de muitas, muitas Carmosinas e, se possível, nenhuma Dora. Vossa Excelência tem poder para transformar as Doras em Carmosinas. O país lhe deu esse poder. Eu tenho um sonho que certamente é também um sonho de Vossa Excelência e de muitos, muitos, muitos brasileiros. Eu tenho um sonho (parodiando o notável reverendo americano) que um dia, realmente, todas as desesperadas Doras serão resgatadas desses ônibus perdidos que atravessam esse nosso sertão de miséria e que a elas será dado nem que seja uma parcela daquele reconhecimento e respeito social das professoras Carmosinas da minha infância. Doras com visão de futuro, com auto-estima, economicamente ajustadas. Professoras Doras inventivas, confiantes, confiantes no seu magistério, para que possam ser amadas como seres humanos e (por que não?) como personagens também. Muito amadas e lembradas por todos os Vinícius e todos os Josués de nosso país. Mesmo assim prefiro as Carmosinas... Que Dora compreenda e me perdoe. Vale a troca. Para o fortalecimento da nossa educação, da nossa cultura, vale a pena, senhor presidente, se a nossa alma, isto é, se a realização do sonho de todos nós, se essa realização não for pequena. Faço de Dora e Carmosina minhas companheiras neste meu agradecimento. Ignorá-las seria desprezar a minha infância e a realidade da minha, não digo velhice, mas da minha madureza.
______________
Discurso feito pela atriz Fernanda montenegro ao ser homenageada por sua indicação ao Oscar de melhor atriz estrangeira pelo desempenho no filme "Central do Brasil".

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O dia da criança (por Joel dos Anjos)

O dia da criança é comemorado em diferentes países do mundo. Cada país escolhe a data de acordo com a história e o significado da comemoração.
Na Índia, o dia da criança é comemorado no dia 15 de novembro; em Portugal e Moçambique, 1º de junho; no Japão e na China, 5 de maio.
Muitos países, no entanto, comemoram no dia 20 de novembro, dia em que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) oficializou a Declaração dos Direitos da Criança (20 de novembro de 1959). Nesse Documento se estabeleceu uma série de direitos válidos a todas as crianças do mundo independente de raça, credo, cor ou sexo, como o direito à afeição, amor e compreensão, alimentação, saúde, educação gratuita e proteção contra todos os tipos de exploração.
No Brasil, uma lei federal proposta pelo deputado Galdino do Vale Filho, criou em 1924, o Dia da Criança, oficializado pelo presidente Arthur Bernardes através do decreto 4867, de 5 de novembro de 1924.
O dia 12 de outubro foi escolhido por ser também a data em que o navegador Cristóvão Colombo descobriu a América - chamada durante vários séculos de continente-criança, por ter surgido para os europeus apenas no século XV.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Índio do asfalto (por Joel dos Anjos)

Em período eleitoral é comum (re) aparecerem os “filhos da terra”: os que a abandonaram, os que a esqueceram, os que nada fizeram para merecerem ser chamados de filhos da terra. E aparecem também os que querem ser adotados a todo custo, aqueles que sem laços nenhum, os criam, obviamente para se desfazerem depois sem nenhum constrangimento. De todo modo, ser filho da terra é uma condição especial, um diferencial que parece pesar na hora da escolha.

Eu, por minha vez, pergunto: ah, Campestre, onde estão os teus filhos? Por que razão te abandonaram? Não me refiro apenas àqueles que zarparam e aqui aparecem de quatro em quatro anos tentando arrebanhar as massas, mas principalmente aqueles que permaneceram e são como ausentes, que nos vendem ilusões e nos tornam desiludidos.

O tempo nos ensina que não basta ser filho da terra, mas que é preciso amar a terra; que é preciso, sobretudo, ter a mesma fome e a mesma sede da terra. Aliás, de que tem tido fome e sede os filhos de Campestre? Não me refiro aos filhos distraídos, abandonados e desiludidos, aos que tiveram que deixar o seu chão para tentar a sorte em chão desconhecido, aos que tiveram que abandonar os estudos a um passo do ensino médio por falta de transporte escolar, aos trabalhadores e trabalhadoras com seus salários atrasados, parcelados, vivendo injustamente de pires na mão a mendigar os seus direitos. Não, não me refiro a nenhum desses filhos de Campestre. A fome desses, eu conheço. Da sede desses, eu também padeço, porque compartilhamos o mesmo sonho de prosperidade e justiça. Refiro-me aqueles que com as nossas necessidades constroem não apenas os seus discursos, mas os seus sonhos, suas casas, e enchem suas casas de conforto, e refinam seus gostos, e freqüentam lugares nunca antes imaginados, e comem, e bebem, e se divertem, e se declaram defensores da terra enquanto a terra morre a míngua abandonada e esquecida.

Talvez porque eu seja um índio do asfalto ainda cultive valores como o amor a terra, e seja capaz até de ouvir o seu lamento e sofrer o seu abandono como se fosse a mim mesmo abandonado. Talvez. Mas talvez eu esteja certo: quem sabe o amor a terra não passe mesmo pelo desejo de governá-la, mas se alimente do sonho de bem servi-la.

domingo, 19 de setembro de 2010

De estouro, não! (por Joel dos Anjos)


De quem será a culpa? Das escolas? Certamente não. O fato de nenhuma escola da rede municipal ser registrada no Ministério da Educação revela uma desatenção de todos os prefeitos que passaram pelo município de São José do Campestre. Por isso ouvi com tristeza o comentário do vereador Dedé Mendonça no seu programa semanal na rádio matutão FM a respeito desse problema que não é exclusivo da Escola Jardelina Freire, mas de todas as escolas da rede municipal de ensino.

Tachar a Escola Jardelina de “escola de estouro” foi no mínimo deselegante. A Escola Jardelina é reconhecida pelo MEC, tem CNPJ, é beneficiada com os programas e convênios do governo federal. Não atua, portanto, na clandestinidade.

Penso que nenhuma crítica deve ser direcionada às escolas particularmente, mas aos gestores que se furtaram ao cumprimento de mais esse dever para com a educação campestrense.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Pátria (Daltro Santos)

A palavra pátria vem do latim – patria – e significa o país dos nossos pais, isto é, dos nossos antepassados. Mas essa é apenas uma definição enciclopédica. Veja o significado de pátria na visão de Daltro Santos:


A pátria é tudo. Quereis que vos diga tudo e eu nada vos digo, porque ela palpita e freme tão forte, tão exclusiva, tão deslumbrante e multiforme nos mais íntimos recessos do meu ser, que o espírito a sente e não pode dizê-la, que o lábio a nomeia e não sabe louvá-la, que o coração a estremece e não consegue explicar a comoção que ela derrama nele!


A pátria é tudo, porque é a vida e somos nós, é a terra e o homem, o envoltório e a essência. É o fulgor sidéreo do firmamento e o balanço constante dos mares, o dardejo do Sol e a pompa dos campos, o cachoeirar dos largos rios e o deslize suave dos regatos, as frondes altas da floresta e as flores da várzea refolente!


A pátria é tudo porque é o homem: - são os antepassados, os que desvelaram a terra e lindaram as fronteiras; é o brandir da espada na defesa e a ovação das vitórias; são os ímpetos e os reptos do gênio, na radiação da palavra, na feitura dos poemas, nos esplendores da arte; são os fastígios das aclamações, renúncias e martírios, delírios e apoteoses; os benefícios do labor e a expansão da cultura, os ardores da liberdade e as afirmações do direito.


A pátria é tudo, porque é o lar, porque é o tempo, porque é a escola, porque é o quartel e a fábrica, a biblioteca e o laboratório, o campo e o gabinete, a nau e a locomotiva, a fazenda e a mina.


A pátria é tudo, e é quase nada às vezes: uma flor, um mistério, um sorriso, uma fonte, um travo de saudade, uma trova da roça, um perfume da selva, um trino de ave, um fugitivo aspecto, um grito de campeiro, um adeus, um suspiro, um ósculo, uma prece...